sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Também Celebro

Para Walt Whitman


Também celebro.
Sofro mas celebro. Sofrer e alegrar-se não se anulam e não negam o canto de louvor.
Sei que sofrer e alegrar-se são momentos de uma vida maior.
Sinto e sei disso.

Não há crise de identidade.
Identidade é um sintoma da crise.

Poderia dizer que sou o solo, as águas, o ar, você.
E, de certa forma, sou.
Mas o que é o solo senão um maravilhoso amontoado de não solo?
E o que é o não solo senão uma infinidade de elementos como o solo?

Mas, ainda assim, há.
Ser não sendo aponta para o fundamento de ser.

Somos. E isto é maravilhoso.
Cantemo-nos.

Poderia celebrar você e o vento e a água por nos dependermos mutuamente. E celebro.
Mas celebro mais a existência que a dependência.
Tu existes!
Poderia nada haver, mas o existir foi concedido.
Celebro!

No instante em que escrevo e celebro nesta beira de lago, o vento enrijece-se e lava minha face semeando verdade.
As águas se agitam e os gansos celebram.
Celebram, pois viver é uma arte.

A água acelerada, sob os raios de sol, produz infinitos pequenos brilhos, móveis, transitórios.
São os seres das águas em procissão, com infinitas velas, em uma cantoria que nem todos ouvem.

Sei que nossas coisas são filhas das coisas da natureza.
Mas sei também que são diferentes e nos moldam diferentes.
Sei que barulho e silêncio coexistem. Respeito.
Mas silêncio e barulho nos moldam diferentes.
E sei que o barulho da natureza não é barulho.
E o das máquinas é.

Irmã pomba que cruza minha visão enquanto escrevo neste chão: não sou tão diferente de ti.
Vivendo, garantindo a vida, bebericando água na beira do lago.
Sinto tua alegria e satisfação, afastando-se do lago aos pulinhos, rumo à sombra sob o arbusto.
Ambos escolhemos estar agora no lago, longe do concreto.
Não desperdiças teu tempo civilizando-se.
Eu te amo também por isto.

E o cisne, tão incrível,
Travesseiro de si mesmo,
Descansa à margem,
Enquanto todos caminham.

Também sinto a morte e sua presença.
Penso a finitude e sei que é um pensar, e que a vida é maior e o existir maior ainda.

Uma vida ruim

Muito téc téc
Pouco tuim
É assim que se faz
Uma vida ruim