segunda-feira, 3 de março de 2014

O Zen para enganar crianças (ou O Tao da enganação - pra ficar comercialmente mais forte)





- Fui até meu professor com nada e voltei com nada.
- Por que se dar ao trabalho de ir ter com o professor, então?
- De que outra forma eu saberia que fui com nada e voltei com nada?
Conversa entre dois antigos mestres Zen

            Apresento uma experiência real: um modo de enganar crianças ao mesmo tempo em que as presenteia com algo nobre. Em suma, um texto sobre educação.
            Certa vez fui a uma festa infantil. Sem pensar muito, fui sem presente. Esqueci-me deste pequeno acordo social. (Lá no fundo, ainda que não tão conscientemente, isto pode ser fruto de minha origem judaica aliada ao fato de sobreviver em São Paulo com um salário de professor de escola pública na categoria mais baixa de evolução funcional). Eis que a criança, coitada, ao me cumprimentar, manifesta seu pedido (nesta idade ainda temos a honra de ir direto ao ponto). De improviso, me resolvo...
Estendo uma de minhas mãos fechada e digo:
- Seu presente está dentro desta mão. Bata nela para abrir.
A criança, claro, apesar de um pouco desapontada com o tamanho do presente, meio desconfiada, meio ansiosa, bate.
Abro a mão e, aí está... o vazio!
A criança me olha com olhar perdido e emendo:
- Isto aqui é um presente valiosíssimo: o vazio. Se você aprender a se contentar com o vazio, não dependerá de mais nada, de nenhum outro presente.
A confusa criança vai embora brincar com seus semelhantes sem entender patavinas. Eu, por outro lado, ganho uma bela risada.
A risada, contudo, não era maldade.