domingo, 2 de novembro de 2014

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Também Celebro

Para Walt Whitman


Também celebro.
Sofro mas celebro. Sofrer e alegrar-se não se anulam e não negam o canto de louvor.
Sei que sofrer e alegrar-se são momentos de uma vida maior.
Sinto e sei disso.

Não há crise de identidade.
Identidade é um sintoma da crise.

Poderia dizer que sou o solo, as águas, o ar, você.
E, de certa forma, sou.
Mas o que é o solo senão um maravilhoso amontoado de não solo?
E o que é o não solo senão uma infinidade de elementos como o solo?

Mas, ainda assim, há.
Ser não sendo aponta para o fundamento de ser.

Somos. E isto é maravilhoso.
Cantemo-nos.

Poderia celebrar você e o vento e a água por nos dependermos mutuamente. E celebro.
Mas celebro mais a existência que a dependência.
Tu existes!
Poderia nada haver, mas o existir foi concedido.
Celebro!

No instante em que escrevo e celebro nesta beira de lago, o vento enrijece-se e lava minha face semeando verdade.
As águas se agitam e os gansos celebram.
Celebram, pois viver é uma arte.

A água acelerada, sob os raios de sol, produz infinitos pequenos brilhos, móveis, transitórios.
São os seres das águas em procissão, com infinitas velas, em uma cantoria que nem todos ouvem.

Sei que nossas coisas são filhas das coisas da natureza.
Mas sei também que são diferentes e nos moldam diferentes.
Sei que barulho e silêncio coexistem. Respeito.
Mas silêncio e barulho nos moldam diferentes.
E sei que o barulho da natureza não é barulho.
E o das máquinas é.

Irmã pomba que cruza minha visão enquanto escrevo neste chão: não sou tão diferente de ti.
Vivendo, garantindo a vida, bebericando água na beira do lago.
Sinto tua alegria e satisfação, afastando-se do lago aos pulinhos, rumo à sombra sob o arbusto.
Ambos escolhemos estar agora no lago, longe do concreto.
Não desperdiças teu tempo civilizando-se.
Eu te amo também por isto.

E o cisne, tão incrível,
Travesseiro de si mesmo,
Descansa à margem,
Enquanto todos caminham.

Também sinto a morte e sua presença.
Penso a finitude e sei que é um pensar, e que a vida é maior e o existir maior ainda.

Uma vida ruim

Muito téc téc
Pouco tuim
É assim que se faz
Uma vida ruim

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Mais três Haikais no busão (no primeiro dia pós-férias)


Ante ao auto-falante
Mais penso
Em como era antes

*

Janela do busão
Sol nascente
Questiona-me o hábito

*

No correr da manhã,
Qual necessidade é finalidade
E qual finalidade é necessidade?

segunda-feira, 3 de março de 2014

O Zen para enganar crianças (ou O Tao da enganação - pra ficar comercialmente mais forte)





- Fui até meu professor com nada e voltei com nada.
- Por que se dar ao trabalho de ir ter com o professor, então?
- De que outra forma eu saberia que fui com nada e voltei com nada?
Conversa entre dois antigos mestres Zen

            Apresento uma experiência real: um modo de enganar crianças ao mesmo tempo em que as presenteia com algo nobre. Em suma, um texto sobre educação.
            Certa vez fui a uma festa infantil. Sem pensar muito, fui sem presente. Esqueci-me deste pequeno acordo social. (Lá no fundo, ainda que não tão conscientemente, isto pode ser fruto de minha origem judaica aliada ao fato de sobreviver em São Paulo com um salário de professor de escola pública na categoria mais baixa de evolução funcional). Eis que a criança, coitada, ao me cumprimentar, manifesta seu pedido (nesta idade ainda temos a honra de ir direto ao ponto). De improviso, me resolvo...
Estendo uma de minhas mãos fechada e digo:
- Seu presente está dentro desta mão. Bata nela para abrir.
A criança, claro, apesar de um pouco desapontada com o tamanho do presente, meio desconfiada, meio ansiosa, bate.
Abro a mão e, aí está... o vazio!
A criança me olha com olhar perdido e emendo:
- Isto aqui é um presente valiosíssimo: o vazio. Se você aprender a se contentar com o vazio, não dependerá de mais nada, de nenhum outro presente.
A confusa criança vai embora brincar com seus semelhantes sem entender patavinas. Eu, por outro lado, ganho uma bela risada.
A risada, contudo, não era maldade.