terça-feira, 27 de novembro de 2012

Feliz Era Nova


Trinta e um de Dezembro de dois mil e doze. Hordas de jovens reúnem-se tristes em um famoso parque para tomar chá e pensar no que farão daqui para frente.
            Há anos esperavam pelo fim. Crentes na chegada da Nova Era e no fim do calendário maia, esperaram o ano todo pelo fim do mundo, ou, ao menos – para os mais conformados -, do atual modo de ser do mundo.
Dois mil e doze era um ano há muito esperado. O momento em que o mundo se transformaria, passando por uma revolução espiritual, ou uma ascensão dos bons de espírito, ou algo assim.
            Após bom tempo discutindo qual seria a dinâmica da reunião, as centenas de jovens reunidos fizeram uma dinâmica de abertura. Dez minutos de meditação, vinte minutos de yoga, dez minutos de silêncio. Pausa para o chá. Uma parte entoou Hare Krishna, Krishna Krishna, seguida por alguns ooooommmms e umas batidas em tambores indígenas.
            Então chegou o momento crucial da reunião: o que fazer agora que o mundo não havia acabado? A tristeza era geral. A angústia, total. Não havia como explicar, por meios humanos, como o calendário havia errado. Afinal, os Maias, sabe? Hare Om... O que faremos?
            Alguns certificaram, após confirmarem no tarô zen do Osho, que a previsão não estava, de fato, errada. O que deveria estar errado era nossa contagem de tempo, certamente alterada pela Igreja Católica. Convencidos de que o dia ainda iria chegar, resolveram continuar na espera. Esse grupo ficou conhecido como “metacrentes”. Montaram uma comunidade e foram esperar o fim do mundo em uma fazenda de família de um dos membros.
            Outros saíram à francesa da reunião e viraram microempresários do ramo de livros e bugigangas exotéricas.
            Mas a maioria continuou perdida. Em uma roda de conversas, após uma saudação Cherokee, um jovem propôs que talvez o erro tenha sido deles mesmos, pois esperaram passivamente pela transformação. Deveriam, como possuidores desse sagrado conhecimento, agir em prol do fim. Deveriam ajudar o Universo. Os que já haviam se transformado suficientemente para ser aquilo que deve ser uma pessoa de espiritualidade avançada seriam juntados em grupos de irmãos. Os que continuavam em um nível baixo de vibração seriam queimados em fornos de barro e suas cinzas seriam compostadas e devolvidas à mãe Gaia.
            De inicio gerou-se polêmica, mas a decisão por consenso era necessária. Justiça acima de tudo. Os que eram contra as queimadas foram julgados como “homens de baixa vibração”, e foram incluídos na ala da humanidade que não deveria existir nos novos tempos de alegria, amor e compaixão.
            Assim sendo, por consenso, criou-se a primeira Frente de Libertação da Nova Era, cujo papel era abrir caminho para a chegada da tão esperada paz eterna.
            Cantos e danças preencheram o resto do dia e da noite. Lentilhas, pulinhos em ondas, roupa branca e espumante deram o tom da noite pelo resto mundo.
Em meados de dois mil e treze, quando a página da Frente de Libertação da Nova Era no Facebook já possuía milhares de membros, as primeiras ações libertárias foram iniciadas. Os novos messias davam o tom e a humanidade, feliz, trabalhava em conjunto na eliminação dos seres inferiores. Nunca antes havia a humanidade trabalhado junto em tão grande escala. Milhares de jovens pelo mundo davam a vida em nome da limpeza espiritual do universo. A alegria era sentida pelas ruas. Prédios esvaziados eram demolidos para a construção de todos os tipos de templos e hortas espirais de temperos.
Em meses, a Nova Era começava a dar sinais.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Um Vegano na Festa




- Mas eu não como muita carne. E mais peixe.
Conheci Pedro em uma festa e esta foi a última frase que me dirigiu.
Por que obtive esta resposta, eu não sei. Estava apenas respondendo sua pergunta sobre o porquê de não achar eticamente correto se alimentar de animais. Ou melhor, tratar os animais como propriedade, cercear suas liberdades, impor-lhes sofrimento.
De qualquer forma, sei lá o porquê, esta foi a última frase que me dirigiu. Talvez tenha estranhado meu longo silêncio. Às vezes tenho a impressão que algumas pessoas se arrependem de tentar puxar uma conversa séria em uma festa. Quantos “nossa, calma, era só uma pergunta, não precisa filosofar” eu já escutei...
Demorei pra responder ao Pedro pois tentei entender o que significa “não muita”. Dizem que em uma cadeia americana um colega de corredor de Charles Manson jurava ser mais nobre por ter matado três pessoas a menos. O carcereiro, ouvindo, os achava demoníacos. Quando queria alguém morto, pagava por serviços profissionalmente estabelecidos. Não seria certo matar com as próprias mãos. Às vezes, sim, precisava executar poucas pessoas, mas sempre por mandato das instâncias governamentais superiores. Legalmente correto, o que não caracteriza um crime, claro. Muito menos um pecado.
Talvez, a confusão entre respeito e quantidade de sofrimento imposto seja uma questão importante para compreender nossa cultura. Enfim, voltando ao Pedro, senti que ele esperava um sorriso de aprovação. Talvez fosse um grande zoólogo, possuidor da descoberta de que peixe é, em realidade, um vegetal que nasce em grandes florestas submarinas, dando voz, mais uma vez, à cultura popular e seus “frutos do mar”. Ou talvez, ainda, seja um grande botânico, que acaba de receber o prêmio Júlio Verne por suas contribuições a esta nobre ciência.
Na verdade, parte importante de meu silêncio foi tentando sacar a diferença entre comer mais peixe ou mais boi. Talvez a carne branca invoque a paz, sei lá. Talvez tenha a ver com a Era de Peixes. Ou melhor, com a Era de Aquário, ao menos pelo nome mais adequada à atual condição de vida e liberdade dos animais da Terra. Vai entender a lógica de pensamento de cada um! Eu diria que não há lógica, apenas reprodução de hábitos e vícios de gerações anteriores, mas se dissesse isto ao meu novo conhecido, seria tido como arrogante. Chamar de ilógico em pleno pós-iluminismo... imoral tudo bem, mas ilógico nunca!
Fiquei também preocupado com a possibilidade de que ele achasse que o estava chamando de irracional. Fiquei com medo da reação, haja visto que não operar com mecanismos racionais, ou mesmo possuir outra racionalidade que não a humana, são erros graves, merecedores de condenação à prisão, tortura e morte. Assim está nas leis.
Respiro...
Tento recomeçar com calma o diálogo sem tão horrendo adjetivo. Queria achar alguma resposta para oferecê-lo, mas percebi que Pedro já estava longe, em direção ao bar. Fiquei aliviado, é verdade, embora angustiado, sempre.
E nem vou contar de Júlia, a graciosa menina que conheci pouco depois, tentando refrescar a cabeça, aproveitar a festa e, quem sabe, conseguir uma companhia. Júlia havia largado o ambiente agressivo da cidade. Mudou-se para o campo, onde, aos finais de semana, saia para pescar com os amigos.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Um Diálogo Racional

Certo dia, um pequeno grupo de amigos e amigas, algo entre cinco e seis jovens, encontrava-se em um bar, quando avistaram, ao longe, religiosos passando, felizes, cantando em grupo.
Um dos amigos enervou-se. E o debate teve inicio.

- Pleno século XXI e esses porras ainda acreditam nesse monte de merda!
- Calma, talvez haja coisa boa entre eles... Valores, respeito...
- Pode haver, mas são educados a achar que é bonito acreditar em algo que não se pode provar racionalmente. E isto é nefasto!
- Mas provar algo racionalmente faz este algo ser menos nefasto?
– Claro! A razão é nossa única forma de checar a veracidade de algo, pô!
– Eu já acho que razão é criada pelo próprio pensamento, então é de menor importância que coisas mais profundas.
– Coisas mais profundas? Do que está falando? Eu não sou contra sentimentos, valores, essas coisas, mas sem razão, só com sentimentos, voltaremos à barbárie.
- Ou sairemos dela...
– Tendo a concordar com você...
- Vocês estão ficando loucos!
- Ei, calma, eu concordo com você, porra. Não com ela. A razão é o que nós temos para discernir entre o bem e o mal. É o modo como nossa mente funciona. Não há porque fugir disso. Só o que precisamos fazer é possuir bons valores e sentimentos, atrelando nossa mente racional a eles.
- Eu diria mais: é a razão que nos permite criar valores nobres e bons sentimentos.
- Eu diria que não... A razão só é boa se embasada em valores nobres e bons sentimentos.
- Eu já acho que nossos valores são estúpidos justamente por causa da razão.
- Eu acho que são estúpidos porque não a usamos decentemente.
- Será que esta discussão faz sentido? Questionar a razão de modo puramente racional?
- Justamente por isso não faz sentido criticar a razão, pois ela é onipresente.
– Exato. Somos racionais. Não aprenderam isto na escola? Animais racionais!
– Eu já acho que é justamente por isso que devemos criticar a razão, pois ela pode provar qualquer coisa, certa ou errada, boa ou má.
- Mas como criticar a razão com a própria razão?
- Acho que devemos criticá-la por meios não racionais.
- Enlouqueceu de vez! Como pensar não racionalmente?
– Também não sei se faz sentido buscar pensar não racionalmente. Não seria melhor apenas reforçar outras dimensões igualmente importantes do humano, que deveriam estar tão desenvolvidas quanto a razão para uma vivência mais completa?
– Acho que não é tão simples, pois estas outras dimensões, se não subjugadas à razão, criam barbárie, puro instinto. Não possuem a mesma importância que a razão!
– Eu já acho que a razão, se não subjugada aos bons sentimentos, cria verdades absolutas, guerras, conflito... O nazismo era plenamente racional.
– O que?! Quer algo mais insano que o nazismo?
– E porque é insano não pode ser racional?
– Claro que não. Nazismo é fé cega em um líder, é demonstração de pura violência, não é racional!
– E quer algo que crie uma fé mais inabalável do que os argumentos racionais?
- O quê?!!! Você não sabe do que está falando.
- Não foi toda a explicação lógica de Hitler que convenceu os alemães que os judeus eram o problema da nação e que o destino dos alemães era viver em seu grande império?

Silêncio...

– É verdade... Talvez você esteja confundindo razão com bom senso.
– E como espera criar bom senso, criar uma boa ética sem ser pela compreensão de argumentos lógicos, portanto racionais?
– Pelos bons sentimentos.
- E pra um sentimento se tornar bom, não se deve questioná-lo e transformá-lo racionalmente?
– Eu tendo a concordar com vocês todos, de certo modo.
– Não fique em cima do muro. Se pensar racionalmente vai discernir melhor as coisas! Não tem como concordar com todos nós ao mesmo tempo!
– Mas, no fundo, tudo o que se falou até agora não faz sentido?
- Não! São visões opostas, não há como todas serem certas.
– Não disse que são certas. Disse que fazem sentido.
– Isso mostra que todas as verdades só são verdades porque fazem um sentido lógico. Não dá pra saber se são verdade de verdade.
– Talvez isso nem exista... Verdade de verdade...
– Viu só? Até pra provar essas coisas você usa da razão. E cria uma verdade, a de que não existe verdade. Não dá pra fugir disso...
– Podes crer.
– Isso prova que a razão não leva à verdade ou ao melhor. Ela pode provar qualquer coisa.
– De fato. Agora acho que me fez sentido.
- E você acredita só porque fez sentido? É uma crença racional, portanto?
- Parece...
- Mas poderia a razão se opor à própria razão?
- Não sei.
- Nem eu.
- Será que não estamos nos enganando?
- Talvez, mas não seria enganar-se achar que podemos achar algo mais verdadeiro para além da razão? Não é outra fé cega, talvez até mais cega?
- Talvez, mas só estamos falando sobre elas racionalmente. Talvez este seja o problema...
- Precisamos buscar respostas em lugares em que a razão não chega.
- Mas se acharmos uma verdade que nos parece ser um sentido mais profundo das coisas, para além dos limites da razão, não estaremos, na verdade, apenas tapando o buraco deixado pela razão com outras fés, menos lógicas e, portanto, mais fáceis de serem aceitas?
- Talvez. Mas talvez seja preciso, por isso, experienciar essas verdades mais profundas, como um budista meditando ou um cristão orando, e não apenas pensar sobre elas.
- Pode ser. Mas quando se acredita que há algo que está em uma dimensão mais profunda do que aquilo que a razão consegue chegar, e se pratica o método que, racionalmente, criou-se para chegar nesta dimensão, acreditando que o método o levará à descoberta, como meditando ou orando, o sentimento de plenitude ou revelação criado não resulta justamente do fato de que a razão o levou a crer que esta experiência sugerida a si mesmo é mais verdadeira e, portanto, você a associa a algo mais pleno e real?
- Pode ser... Mas como saber?
- Não sei.
– O budismo é bem racional, não?
- E isso faz dele ruim?
- Eu acho que ele é uma prova de que há como fazer um ótimo uso da razão, se vinculada a bons princípios.
- Eu já acho que é mais uma criação nefasta da razão. É a razão tentando apagar a si mesma, silenciando a mente. É uma mortificação do humano.
- Tendo a concordar que é mais um exemplo de como racionalmente se constrói um sistema de pensamento que faz sentido e pode ser seguido, o que não quer dizer que seja a verdade.
- Nem que exista algo que não a seja.
- E com que certeza podemos falar que há em nós um “eu” mais profundo, que há uma verdade mais profunda na existência, uma lógica no universo, alguma espécie de deus, ou algo assim? Como saber se não são criações racionais, explicativas?
- Não sei. Talvez seja só querer acreditar em algo, assim como quem quer acreditar que a razão é o que temos de mais importante. E daí?

Longo silêncio...

– Então chegamos a um beco sem saída.
- E talvez esse seja o ponto... Mais dúvida e menos certeza...
– Talvez, e isso prova que não é a razão que nos levará a algo melhor, pois ela é construtora de verdades certas, não de dúvidas.
- Claro que não. É a razão quem cria as dúvidas e quem detecta esse tal beco sem saída.
- Sim, por isso não devemos criar certezas. Muito menos julgar os outros de acordo com nossas próprias certezas.
– Exato. No final, o problema é a mente que julga.
- Mas o que julga o que é o problema não é a mente?
– Talvez devamos então buscar a verdade fora de nossa própria mente, em algo superior.
– Ou dentro de nós, em algo escondido.
– E a conclusão de que há uma verdade fora de nós ou escondida em nós, além de nossa própria razão, não é uma conclusão racional, logo uma criação nossa?
– Acho que já discutimos isso.
– Sim, mas não chegamos a nenhuma resposta.
– E quem disse que a resposta existe?
– Alguma verdade tem que haver!
– Então você possui fé na verdade.
– Fé? O que eu quero é apenas, com minhas possibilidades mentais, entender o que as coisas são. Há uma explicação verdadeira, mesmo que eu não a saiba! Esse seu discurso em cima do muro, contra a certeza, é uma loucura, pura fé!
– Quer fé mais forte do que a certeza?

– Garçom, mais uma, por favor.

O Cientista e o Místico (2ª versão)

O cientista diz pro místico que sua crença não é real. Não é baseada em evidências.

O místico diz que são, mas as evidências são percebidas apenas se procuradas.


O cientista diz que as evidências do místico não são empíricas.

O místico responde que é porque os sentidos do cientista não o permitem perceber.


O cientista diz que o místico está vendo o que deseja, percebendo aquilo que condicionou a mente a querer perceber.

O místico responde que o cientista também.


O cientista responde.

O místico também.


E eu gargalho para a chuva.